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Princípio ALARA: o que é e como aplicar na proteção radiológica

Por Equipe RadioCursos · 19/10/2026 · 9 min de leitura

ALARA vem do inglês As Low As Reasonably Achievable: tão baixo quanto razoavelmente exequível. É a ideia central da proteção radiológica: toda exposição à radiação ionizante deve ser mantida no menor nível possível, levando em conta fatores técnicos, econômicos e sociais, sempre sem comprometer a qualidade do diagnóstico. Neste artigo você vê de onde vem o princípio, como ele se divide em regras práticas e o que muda na rotina de quem trabalha com radiação.

Radiografia histórica da mão de Anna Bertha Röntgen, com o anel no dedo, feita por Wilhelm Röntgen em 1895
Uma das primeiras radiografias médicas da história: a mão da esposa de Röntgen, em 1895. Os efeitos biológicos da radiação só foram bem compreendidos nas décadas seguintes. Foto: Wilhelm Röntgen / Wikimedia Commons, domínio público.

Por que a proteção radiológica existe

Poucos meses depois da descoberta dos raios X, em 1895, já havia relatos de queimaduras de pele e queda de cabelo em pessoas que os manipulavam sem cuidado. A partir daí, a comunidade científica passou a estudar os efeitos da radiação e a propor regras de uso. Em 1928 foi criada a Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP), cujas recomendações até hoje inspiram as normas dos países, inclusive a norma brasileira da CNEN.

O raciocínio é equilibrado: a radiação ionizante traz um benefício enorme em diagnóstico e tratamento, mas carrega um risco. A proteção radiológica não proíbe o uso. Ela organiza o uso para que o benefício seja sempre maior que o risco.

O que é radiação ionizante

É a radiação com energia suficiente para arrancar elétrons dos átomos, produzindo íons. Isso pode danificar moléculas importantes das células, como o DNA. Fazem parte dela os raios X e os raios gama (ondas eletromagnéticas), além de partículas como alfa, beta e nêutrons. Na radiologia convencional, o foco são os raios X.

Dois tipos de efeito biológico

  • Efeitos determinísticos (reações teciduais): aparecem acima de um limiar de dose e ficam mais graves quanto maior a dose. Exemplos: vermelhidão da pele (eritema), queda de cabelo e catarata. Em procedimentos de rotina bem conduzidos, esses limiares não são atingidos.
  • Efeitos estocásticos: são de natureza probabilística. A chance de ocorrerem (como o câncer) aumenta com a dose, e a proteção radiológica trabalha com a hipótese prudente de que não existe dose totalmente isenta de risco. Esse é o raciocínio que sustenta o ALARA.

Os três princípios da proteção radiológica

  • Justificação: nenhuma exposição deve ser feita se o benefício não for maior que o risco. Um exame precisa de indicação clínica e de pedido médico.
  • Otimização: é onde mora o ALARA. A dose deve ser a menor possível para obter a imagem necessária ao diagnóstico, escolhendo técnica, protocolo e equipamento adequados.
  • Limitação de dose: trabalhadores e membros do público têm limites anuais que não devem ser ultrapassados. Os limites não se aplicam ao paciente em exame, que é protegido pela justificação e pela otimização (por exemplo, com os níveis de referência de diagnóstico).
Profissional de saúde operando um equipamento de angiografia em uma sala de radiologia intervencionista
Sala de radiologia intervencionista: nos procedimentos longos, tempo, distância e blindagem fazem toda a diferença para a equipe. Foto: Navy Medicine (Marinha dos EUA) / Wikimedia Commons, domínio público.

Tempo, distância e blindagem na prática

Na rotina do serviço de imagem, o ALARA vira três cuidados que qualquer profissional consegue aplicar todos os dias.

1. Tempo

A dose é proporcional ao tempo de exposição. Planeje o exame antes de iniciar, confira a posição do paciente e os parâmetros, e evite repetições. Em fluoroscopia, use o disparo apenas quando precisar ver a imagem, trabalhe com pulsos (em vez de contínuo) quando possível e guarde a última imagem para consulta.

2. Distância

A intensidade da radiação diminui com o quadrado da distância à fonte (lei do inverso do quadrado). Um exemplo simples: se a taxa de dose é de 100 µSv/h a 1 metro, será de cerca de 25 µSv/h a 2 metros e de cerca de 11 µSv/h a 3 metros. Por isso, dar um ou dois passos para longe do paciente durante o disparo, ou ficar atrás da barreira, reduz muito a exposição.

3. Blindagem

Materiais de número atômico alto, como o chumbo, absorvem boa parte dos raios X. Na prática:

  • as paredes e as portas da sala têm blindagem calculada para o equipamento e a carga de trabalho;
  • o biombo plumbífero protege quem opera ou auxilia no exame;
  • aventais plumbíferos (em geral com 0,25 mm ou 0,5 mm de equivalência em chumbo), protetores de tireoide, óculos e luvas plumbíferas protegem o profissional e o acompanhante quando há necessidade de ficar na sala.
Avental plumbífero de proteção radiológica pendurado em uma parede
Avental plumbífero. Deve ser guardado pendurado, sem dobras, e inspecionado periodicamente, porque trincas na camada de chumbo reduzem a proteção. Foto: Kiran891 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Biombo plumbífero branco de proteção contra raios X em uma sala de radiologia
Biombo plumbífero fixo: o operador fica atrás dele durante a exposição. Foto: Adoscam / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

De onde vem a dose do profissional

Quem trabalha no setor de imagem raramente é atingido pelo feixe direto. A dose ocupacional vem, principalmente, da radiação espalhada pelo próprio paciente. Por isso, quanto maior o campo irradiado e maior a espessura do paciente, mais radiação espalhada existe. Colimar bem o feixe reduz a dose do paciente e a do profissional ao mesmo tempo.

Diagrama de proteção do operador de raios X: filtro correto, feixe limitado à área de interesse, barreira de chumbo ou concreto e operador atrás da proteção
Esquema clássico de proteção do operador: feixe limitado à área de interesse e controles posicionados atrás da barreira. O desenho é antigo, mas os princípios continuam valendo. Foto: J. C. McClintock, R. J. Hritz e B. B. Byers (NIOSH, EUA) / Wikimedia Commons, domínio público.

Rotina segura em dez passos

  1. Confira a identificação do paciente e o pedido antes de qualquer exposição.
  2. Pergunte sobre possibilidade de gravidez em mulheres em idade fértil e siga o protocolo do serviço.
  3. Escolha a técnica e o protocolo adequados ao biotipo (e, em crianças, aos protocolos pediátricos).
  4. Colime o feixe para a área de interesse.
  5. Posicione com cuidado e explique a respiração e a imobilização, para evitar repetições.
  6. Remova objetos que possam gerar artefatos e obrigar a repetição.
  7. Feche a porta e confira a sinalização luminosa da sala antes de disparar.
  8. Disparar sempre atrás da barreira, ou usar vestimenta de proteção se precisar ficar na sala.
  9. Se houver acompanhante, ofereça avental e, quando possível, escolha alguém que não seja gestante.
  10. Registre repetições e as razões delas: é assim que o serviço encontra pontos a melhorar.
Luz vermelha de sinalização na porta de uma sala de radiografia convencional
A luz de sinalização na entrada indica que a sala está em uso. Em muitos serviços, ela acende quando o equipamento está ligado. A placa da foto está em inglês. Foto: Erereony / Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

Dosimetria individual

Quem trabalha com radiação usa um dosímetro individual, que registra a dose acumulada. Os mais comuns são os de termoluminescência (TLD), os de luminescência opticamente estimulada (OSL) e os de filme. Eles são enviados periodicamente (em geral, todo mês) a um laboratório que lê a dose e emite um relatório. Alguns cuidados:

  • o dosímetro é pessoal e intransferível: nunca use o de outra pessoa;
  • deve ficar na altura do tórax, sob o avental, quando houver avental (e, em alguns serviços, há um segundo dosímetro por fora, na altura do pescoço);
  • ao fim do turno, ele deve ser guardado em local próprio, longe de fontes de radiação, de calor e de umidade;
  • perdeu ou danificou? Avise o responsável pela radioproteção na hora.
Dosímetro individual de termoluminescência (TLD) azul, preso a um clipe, usado por profissionais de um serviço de radiologia
Dosímetro individual do tipo TLD, usado por profissionais de um setor de radiologia. Foto: Erereony / Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

Limites de dose

A norma brasileira de radioproteção da CNEN (CNEN NN 3.01) estabelece, para o indivíduo ocupacionalmente exposto, um limite de dose efetiva de 20 mSv por ano, como média em cinco anos consecutivos, sem ultrapassar 50 mSv em nenhum ano. Para membros do público, o limite é de 1 mSv por ano. A norma trata de maneira específica a trabalhadora gestante: as condições de trabalho precisam ser tais que a dose no feto seja mantida bem baixa ao longo da gestação. Confira sempre a versão vigente da norma e as exigências da Anvisa para o seu serviço.

Como se compara: ordens de grandeza

Para ter uma noção de escala, estes são valores típicos citados na literatura (variam com equipamento, protocolo e tamanho do paciente):

Situação Dose efetiva aproximada
Radiação natural de fundo (média mundial, por ano) cerca de 2,4 mSv
Radiografia de tórax em PA cerca de 0,02 a 0,1 mSv
Mamografia (exame de rastreamento) cerca de 0,4 mSv
Tomografia de crânio cerca de 2 mSv
Tomografia de abdome e pelve cerca de 8 a 10 mSv

Esses números mostram por que a tomografia exige tanta atenção à justificação e à otimização, e por que os níveis de referência de diagnóstico (NRD) são tão úteis para comparar o serviço com a média.

Erros comuns que o ALARA ajuda a evitar

  • Campo grande demais, sem colimação.
  • Repetir a radiografia por falta de explicação ao paciente.
  • Ficar na sala durante o disparo sem necessidade e sem avental.
  • Deixar a porta aberta durante a exposição.
  • Usar avental trincado ou mal conservado.
  • Ignorar o dosímetro ou deixá-lo na sala de exame.

Perguntas frequentes

O ALARA vale também para o paciente?

Sim, na forma de otimização: a dose deve ser a menor possível para obter a imagem necessária. O que não existe para o paciente é um limite numérico de dose, porque o benefício clínico do exame é que decide.

Proteger as gônadas do paciente ainda é obrigatório?

As recomendações sobre isso vêm sendo revistas, porque a proteção nem sempre reduz a dose de forma relevante e pode atrapalhar a imagem ou levar à repetição. Siga o protocolo do serviço e a norma vigente.

Quem pode ficar na sala durante o exame?

Somente quem for indispensável (por exemplo, um acompanhante para segurar uma criança), com avental. Gestantes não devem ser acompanhantes.

Veja também em vídeo

Vídeo do canal Radiologia na Palma da Mão, no YouTube, de terceiros: o conteúdo é de responsabilidade do canal. Abrir no YouTube.

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Conteúdo educativo. Ele não substitui o texto oficial das normas, o protocolo do seu serviço nem a orientação de um profissional. Em caso de dúvida, consulte sempre a norma vigente e a coordenação do seu curso.

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